Estamos o tempo todo comparando coisas mentalmente, por uma aptidão
estatística inata
Por
Aldo Bizzocchi
As gramáticas afirmam que os adjetivos e os advérbios de modo possuem
dois graus: comparativo e superlativo. A primeira coisa que precisa ser
dita a respeito é que os graus do adjetivo e do advérbio na verdade são
três: o grau "zero", normal ou neutro (Este livro é bom. Ele escreve
bem.), o comparativo (Este livro é melhor do que aquele. Ele escreve
melhor do que eu.) e o superlativo (Este é o melhor livro que já li. Ele
escreve o melhor que consegue.). Não se deve esquecer também que o
comparativo pode ser de igualdade (tão bom quanto), de superioridade
(melhor do que) ou de inferioridade (pior do que), e o superlativo pode
ser absoluto (ótimo, muito bom) ou relativo (o melhor).
Em português, só os adjetivos grande, pequeno, bom e mau e os advérbios
bem e mal admitem formas comparativas sintéticas, herdadas do latim:
maior, menor, melhor e pior. Os demais adjetivos e advérbios formam o
comparativo e o superlativo de forma analítica: mais rico, mais
facilmente, etc.
Primitivos e derivados
Porém, se considerarmos muito (Ele tem muito dinheiro. Ela trabalha
muito.) e pouco (Ele tem pouco dinheiro. Ele trabalha pouco.) como
adjetivos ou advérbios - as gramáticas os classificam como pronomes
indefinidos -, então teremos mais dois comparativos sintéticos em
português: mais e menos (Ele tem mais dinheiro do que eu. Ele trabalha
menos do que seu irmão).
Segundo as gramáticas, bom, mau, grande, pequeno, muito e pouco são
adjetivos primitivos, enquanto melhor, pior, maior, menor, mais e menos
são derivados, senão etimologicamente, ao menos semanticamente. Afinal,
melhor é literalmente "mais bom", maior é "mais grande" (Em Portugal,
não é proibido usar mais grande e mais pequeno no lugar de maior e
menor).
De acordo com certos princípios lógicos e com o bom senso, isso implica
que é preciso primeiro saber o significado de "bom" para compreender o
significado de "melhor", não é?
Pois experiências conduzidas por lingüistas e neurocientistas têm
demonstrado que, para a cognição humana, bom, mau, grande, pequeno,
etc., são conceitos subjetivos e relativos, ao passo que melhor, pior,
maior, menor são objetivos e absolutos. Para definir o que é grande ou
pequeno, é preciso primeiro ter uma noção do que seja maior e menor.
Parece absurdo? Nem tanto.
Os experimentos, realizados com crianças e adultos de variados graus de
escolaridade e pertencentes às mais diversas culturas - de
universitários suecos a aborígines australianos -, mostram que a noção
de comparação é universal: dados dois objetos de mesma natureza (por
exemplo, duas pedras) e tamanhos diferentes, em 100% dos casos os
informantes determinam com precisão qual é o maior ou o menor. No
superlativo, a comparação se dá entre três ou mais objetos. A estratégia
nesse caso é comparar os objetos dois a dois para determinar qual o
maior (ou menor). Ou seja, o superlativo é um comparativo entre um
objeto e um conjunto de outros objetos ("Paulinho é o melhor aluno da
classe" equivale a "Paulinho é melhor do que qualquer outro aluno da
classe").
Referencial
Mas esses experimentos mostram que noções de grande e pequeno dependem
de referencial. (É evidente, o mesmo se aplica a conceitos de bom e mau,
novo e velho, etc.) A formiga é grande ou pequena? O elefante, é grande
ou pequeno? Se comparada a um átomo, uma formiga é gigantesca. Já o
elefante, em relação ao Sol, parecerá minúsculo.
Então, como sabemos se algo ou alguém é grande ou pequeno, bom ou ruim,
novo ou velho, rico ou pobre.? Na verdade, o que essas experiências
indicam é que todo ser humano possui uma espécie de aptidão estatística
inata, capacidade intuitiva de estabelecer médias ou padrões. Na
prática, estamos o tempo todo comparando coisas mentalmente. Por isso,
quando digo que uma formiga é pequena e um elefante é grande,
provavelmente estou tomando como padrão de medida o meu próprio tamanho.
Nesse caso, dizer que a formiga é pequena equivale a dizer que ela é
menor do que eu - ou os humanos em geral. Em resumo, grande significa
"maior do que o normal, a média, o esperado".
Da mesma forma, quando se diz que fulano é rico, o que está implícito é
que ele tem mais dinheiro do que a maioria. O surpreendente aí é que,
sem nos darmos conta, estamos o tempo todo estabelecendo médias e
comparando os fatos da realidade a essas médias. A prova foi muito
difícil? É porque ela deve ter sido mais difícil do que a média que eu
estabeleci (a maioria das provas que já fiz). Não é à toa que o que é
difícil para uns é fácil para outros. Noções como "bem" e "mal" são
relativas. Por isso, a própria ética é uma mera convenção social e não
uma ciência. Afinal, não se pode determinar objetivamente o que seja bom
ou mau; o que os filósofos, legisladores e líderes religiosos fazem é
estabelecer um padrão com base numa média de comportamentos. Por
exemplo, se todos cometerem assassinato, a sociedade se autodestrói. A
convivência pacífica é melhor do que o crime, o que a leva a ser tomada
como padrão. O homicídio então é considerado um desvio da norma.
Essa idéia de norma - e de "normal" - existe em todos os povos, até
entre os que desconhecem a matemática e não contam além de três, como os
ágrafos. Isso parece indicar que, em algum lugar de nosso cérebro,
operamos um cálculo intuitivo em que atribuímos valor quantitativo até a
conceitos qualitativos como "bom" e "mau". Nosso julgamento da realidade
se processa como uma equação em que somamos esses valores e os dividimos
pelo total para obter médias. É claro, isso se dá por estimativa: para
afirmar que fulano é rico não preciso somar a renda anual dos
brasileiros e dividir pelo número total de habitantes. Mesmo sem
conhecer a exata renda média do brasileiro, sabemos intuitivamente se um
indivíduo em particular está acima ou abaixo desse padrão.
Padrões diferentes
O problema é que sociedades diferentes adotam padrões distintos para
tudo: o que é belo num lugar e período pode ser feio em outro; os gostos
variam, as opiniões e crenças, idem. O grau de pontualidade de cada povo
depende da conceituação subjetiva e cultural do que seja "cedo" ou
"tarde". Comer saúva frita causa repulsa em muitos lugares, mas para os
chineses se trata de iguaria afrodisíaca.
Embora nem mesmo as concepções de bem e mal sejam universais, a
convicção de que há um Bem e um Mal absolutos tem levado à intolerância,
ao preconceito, a conflitos religiosos e perseguições ideológicas de
todo tipo. Expressões como menos ruim - que é diferente de melhor -
indicam que, ao comparar duas coisas, a primeira é melhor que a segunda
(ou a segunda é pior que a outra, tanto faz), mas ambas estão abaixo da
média, portanto ambas são ruins. Já a expressão melhor indica que ao
menos uma é boa, está na média ou acima dela em termos de qualidade.
A descoberta de que, em matéria de comparativos, o primitivo é derivado
e vice-versa traz uma série de implicações ao estudo do funcionamento do
cérebro humano e ao da língua. E mostra que a gramática nem sempre -
quase nunca - é codificada segundo princípios científicos.
Fonte:
Editora Segmento
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