O português falado no Brasil é talvez o mais rico e
o mais imoral dos idiomas no que se refere à definição de infância
Por
Cristovam Buarque
Os esquimós têm diversos nomes para indicar a neve. Para eles, cada tipo
de neve é uma coisa diferente de outro tipo. Para os povos da floresta,
cada mato tem um nome específico. Os habitantes dos desertos têm nomes
diferentes para dizer "areia", conforme as características específicas
que ela apresenta. Para conviver com seu meio ambiente, cada povo
desenvolve sua cultura com palavras distintas para diferenciar as
sutilezas do seu mundo. Quanto mais palavras distinguindo as coisas que
as rodeiam, mais rica é a cultura de uma população.
Os brasileiros urbanos desenvolveram sua cultura criando nomes especiais
para diferenciar o que, para outros povos, seria apenas uma criança.
Para poder circular com segurança nas ruas de suas cidades, os
brasileiros do começo de século 21 têm maneiras diferentes para dizer
"criança". Não se trata dos sinônimos de antigamente para indicar a
mesma coisa, como "menino", "guri", "pirralho". Agora, cada nome indica
uma sutil diferença no tipo de criança. O português falado no Brasil é
certamente o mais rico e o mais imoral dos idiomas do mundo atual no que
se refere à definição de criança. É um rico vocabulário que mostra a
degradação moral de uma sociedade que trata suas crianças como se não
fossem apenas crianças.
Menino-de-rua significa aquele que fica na rua em lugar de estar na
escola, em casa, brincando ou estudando, mas tem uma casa para onde ir -
diferenciado sutilmente dos meninos-de-rua, aqueles que não apenas estão
na rua, mas moram nela, sem uma casa para onde voltar. Ao vê-los, um
habitante das nossas cidades os distingue das demais crianças que ali
estão apenas passeando.
Flanelinha é aquele que, nos estacionamentos ou nas esquinas, dribla os
carros dos ricos com um frasco de água em uma mão e um pedaço de pano na
outra, na tarefa de convencer o motorista a dar-lhe uma esmola em troca
da rápida limpeza no vidro do veículo. São diferentes dos esquineiros,
que tentam vender algum produto ou apenas pedem esmolas aos passageiros
dos carros parados nos engarrafamentos. Ou dos meninos-de-água-na-boca,
milhares de pobres crianças que carregam uma pequena caixa com
chocolates, tentando vendê-los mas sem o direito de sentir o gosto do
que carregam para outros.
Sutis diferenças
Prostituta-infantil já seria um genérico maldito para uma cultura que
sentisse vergonha da realidade que retrata. Como se não bastasse, ainda
tem suas sutis diferenças. Pode ser bezerrinha, ninfeta-de-praia,
nina-da-noite, menino ou menina-de-programa ou michê, conforme o local
onde faz ponto ou gosto sexual do freguês que atende. E tem a palavra
menina-paraguai, para indicar crianças que se prostituem por apenas um
real e noventa e nove centavos, o mesmo preço das bugigangas que a
globalização trouxe de contrabando, quase sempre daquele país. Ou
menina-boneca, de tão jovem que é quando começa a se prostituir, ou
porque seu primeiro pagamento é para comprar a primeira boneca que nunca
ganhou de presente.
Delinqüente, infrator, avião, pivete, trombadinha, menor, pixote: sete
palavras para o conjunto da relação de nossas crianças com o crime. Cada
qual com sua maldita sutileza, conforme o artigo do código penal que
cabe, a maneira como aborda suas vítimas, o crime ao qual se dedica...
Podem também, no lugar de crianças, serem boys, engraxates,
meninos-do-lixo, recicladores-infantis, de acordo com o trabalho que
cada uma delas faz.
Ainda tem filhos-da-safra, para indicar crianças deixadas para trás por
pais que emigram todos os anos em busca de trabalho nos lugares onde há
empregos por bóias-fria, nome que indica também a riqueza cultural do
sutil vocabulário da realidade social brasileira. Ou os pagãos-civis,
vivendo sem registro que lhes indique a cidadania de suas curtas
passagens pelo mundo, em um país que lhes nega não apenas o nome de
criança, mas também a existência legal.
Criança-triste
Como resumo de todos estes tristes verbetes, há também criança-triste:
não se refere à tristeza que nasce de um brinquedo quebrado, de uma
palmada ou reprimenda recebida, ou mesmo da perda de um ente querido. No
Brasil há um tipo de criança que não apenas fica ou está triste, mas
nasce e vive triste - seu primeiro choro mais parece um lamento pelo
futuro que ainda não prevê do que um respiro no novo ar em que vai
viver, quando pela primeira vez o recebe em seus diminutos pulmões.
Criança-triste, substantivo e não adjetivo, como um estado permanente de
vida: esta talvez seja a maior das vergonhas do vocabulário da realidade
social brasileira. Assim como a maior vergonha da realidade política é a
falta de tristeza no coração de nossas autoridades diante da tristeza
das crianças brasileiras, com as sutis diversidades refletidas no
vocabulário que indica os nomes da criança.
A sociedade brasileira, em sua maldita apartação, foi obrigada a criar
palavras que distinguem cada criança conforme sua classe, sua função,
sua casta, seu crime. A cultura brasileira, medida pela riqueza de seu
vocabulário, enriqueceu perversamente ao aumentar as palavras que
indicam criança. Um dia, esta cultura vai se enriquecer criando nomes
para os presidentes, governadores, prefeitos, políticos em geral que não
sofrem, não ficam tristes, não percebem a vergonhosa tragédia de nosso
vocabulário.
Quem sabe não será preciso que um dia chegue ao governo uma das
crianças-tristes de hoje, para que o Brasil torne arcaicas as palavras
que hoje enriquecem o triste vocabulário brasileiro e construa um
dicionário onde criança... seja apenas criança.
Cristovam Buarque é professor da UnB e senador (PDT/DF)
Fonte:
Editora Segmento
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