|
Por Leônidas Albuquerque
Ao longo das três últimas décadas, a concorrência pesada e salários baixos
oferecidos pelo mercado de trabalho brasileiro têm despertado interesse dos
profissionais por uma vaga no funcionalismo público. Entre os benefícios - que
já eram atrativos nos anos 80 - estão estabilidade, boa remuneração e regime
especial de aposentadoria. Com tanta gente querendo trabalhar para o Estado,
conseguir a aprovação é um desafio ainda mais difícil do que antigamente.
Quando Eduardo da Gama resolveu, aos 18 anos, ingressar no Supremo Tribunal
Federal (STF), ele não viu necessidade de matricular-se em um cursinho
preparatório para enfrentar a concorrência de três mil candidatos para 100
vagas. "Na verdade, eu comprei uma apostila e estudei sozinho em casa por seis
meses. Foi uma rotina de estudos intensa, mas bem mais suave que a enfrentada
pelos candidatos de hoje", compara.
À época, Eduardo trabalhava no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), mas viu no STF uma possibilidade de ascensão profissional. Para ser
aprovado no concurso de 1977 - a posse viria logo no começo do ano seguinte
graças à boa colocação -, ele contou com os livros da biblioteca de casa e com
as dicas do pai, funcionário de carreira do Supremo Tribunal Militar (STM).
Cristina Carneiro de Moura se tornaria colega de Eduardo no STF 32 anos depois,
período suficiente para dificultar, e muito, a aprovação. Recém-formada em
Direito, ela resolveu dedicar-se exclusivamente aos estudos para uma vaga no
funcionalismo. Após um ano de uma rotina exaustiva de estudos, ela conseguiu a
aprovação. "Eu só comecei a pensar em concursos depois de colar grau, mas a
faculdade bem feita e na área foi fundamental para ser aprovada tão
rapidamente", avalia.
Para ela, que agora se prepara para ingressar na magistratura, houve um aumento
na obsessão e na paranóia por concursos, principalmente por causa da
concorrência maior. Mas a candidata não desanima. "Quem está tentando um
concurso tem de se ver como seu único rival. O mais importante é estar seguro de
uma preparação sólida, porque daí o resultado dos outros não vai fazer
diferença", observa.
Funcionário do Tribunal de Contas da União (TCU) desde 1987, Olímpio José
Ferreira reconhece que seu ingresso foi "mais suave" do que o das pessoas que
estão estudando para o concurso de 120 vagas de analista, com inscrições ainda
abertas. Sem cursinho, ele contou basicamente com os conhecimentos da graduação
em economia, somados aos estudos por conta própria para assumir o cargo de
analista.
Contudo, ele afasta a idéia de que os candidatos de hoje são melhores que os dos
anos 80. "O que acontece é que as seleções estão mais exigentes com os
conteúdos, tanto em extensão quanto em profundidade. Nossa preparação era menor
porque a necessidade também era, mas a concorrência também assustava", compara
ao lembrar foi aprovado em seleção que teve 35 mil inscritos.
Concorrência
O professor Kleber Silva, que leciona Direito Constitucional e Administrativo no
Instituto Processus, acredita que a principal mudança que repercutiu na
dificuldade foi a profissionalização dos estudantes. "Antes era muito raro
alguém largar tudo para se dedicar aos estudos, mas hoje, cada vez mais gente
aposta todas as fichas nos concursos", afirma.
"A tendência é que a dificuldade continue aumentando, mas não no ritmo sentido
nos anos 90", analisa Roberto Vasconcelos, professor de matemática e raciocínio
lógico do OBCursos. Contudo, ele garante que quem ainda não começou a se
preparar não deve ter receio de começar do zero. "A melhor alternativa é
escolher uma área prioritária, com base nas afinidades e ambições pessoais, e
estudar com afinco e disciplina, sem preocupar-se em demasia com o que os
concorrentes estão fazendo", aconselha.
Fonte: CorreioWeb
|