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Ainda existe no imaginário de muitos aquela velha idéia de que quem conquista um
lugar no funcionalismo público pouco trabalha e muito ganha. Basta lembrar da
marchinha de carnaval de Haroldo Barbosa que se referia aos "barnabés", os
antigos burocratas da capital federal que penduravam os paletós na sala de
trabalho e nada faziam. A imagem do funcionário público acomodado e sem ambição,
no entanto, tem mudado, principalmente na capital federal, terra dos concursos.
O professor do Obcursos, Wilson Granjeiro, acredita que o estigma de pessoas
pouco producentes, carregado pelos servidores, caiu por terra em meados da
década de 90. "Houve uma grande mudança cultural dentro do serviço público. Os
órgãos hoje exigem desempenho e qualidade. Um concursado tem que ter raciocínio
lógico, ser atualizado e organizado", diz. O docente, que já foi servidor de
órgãos do Governo do Distrito Federal, do Ministério da Justiça e Rede Sarah,
afirma que batalhou muito para crescer dentro do funcionalismo. "Já trabalhei em
muitos natais, anos novos e já virei muitas noites para terminar trabalhos que
levava para casa", relembra.
O docente afirma ainda que pessoas que não se enquadram no conceito de
pró-atividade não servem como peças importantes dentro de uma empresa. "As metas
têm de ser atingidas e dentro de uma empresa não sobrevivem pessoas que pensam
no cargo público como bico ou forma de ganhar dinheiro e não fazer nada", opinia.
Segundo Granjeiro, uma pesquisa realizada com 16 mil alunos de cursinhos mostrou
que 90% dos concurseiros que ingressam no serviço público desejam se manter nele
até a aposentadoria.
Imagem do serviço púbico O procurador da Fazenda Leandro Bueno
acredita que a carga de trabalho varia de acordo com cada órgão, mas com
ressalvas. "Muitas vezes casos isolados fazem com que os concursados levem a
fama de que não trabalham", diz. Bueno afirma ainda que os grandes salários
oferecidos pelos órgãos atraem os cidadãos comuns que não possuem conhecimento
sobre o funcionamento da administração pública. "Pessoas leigas não entendem
como as coisas acontecem dentro de um órgão. Elas imaginam que vão bater um
ponto no trabalho sem pensar na questão da pró-atividade e do serviço público",
argumenta.
Quando ingressou no serviço público há oito anos, Bueno já esperava o que viria
pela frente. "Já tinha ouvido falar sobre a rotina do serviço. Hoje eu me deparo
com uma quantidade imensa de trabalho", discursa. E o salário de procurador faz
jus à carga. "Eu não tenho um horário fixo. Muitas vezes começo às 9h e fico em
reuniões que varam até as 21h, levando até trabalho para casa", conta.
Realidade Daniel Moraes* é servidor do Superior Tribunal de Justiça desde 2003. O advogado
conta que, no início, quando ainda não ocupava um cargo de confiança, a carga
horária era seguida segundo a regra. Após ser nomeado em um cargo de maior
responsabilidade, a jornada de atividades cresceu de maneira absurda. "Hoje em
dia chego às 9h e fico até as 20h", garante. Moraes não se assustou com a
mudança. "Como meus pais são servidores públicos, eu já sabia que seria assim",
explica.
O servidor afirma que no Judiciário não há tempo para ficar parado. "Aqui o
trabalho é muito puxado, em geral. Não há um lugar no Tribunal em que as pessoas
não estejam trabalhando bastante", conta. Moraes enfatiza que, no serviço
público, não há mais espaço para moleza. "Todo mundo quer ganhar muito e
trabalhar pouco. Mas geralmente no serviço público é assim: quanto maior o seu
salário, maior o seu trabalho", finaliza.
*A pedido, o nome do entrevistado foi trocado.
Fonte:
CorreioWeb
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