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A cultura geral influi necessariamente na formação taquigráfica do
estudante, na sua compreensão, no seu desenvolvimento e no seu
entusiasmo.
Em igualdade de condições, aquele que estiver mais bem forrado de
conhecimentos gerais alcançará o voto de Minerva, na luta pelo
aperfeiçoamento na arte a que se dedica, pois Minerva é a deusa da
sabedoria e das artes e neta dileta de Cromo (também chamado Urano ou
Saturno), que preside ao Templo, e ele próprio é o deus que abarca o
Presente, o Passado e o Futuro. Se nos fosse possível imaginar ou
construir uma fórmula para ajudar o aluno de taquigrafia, nós a
remataríamos, como fez Einstein – passe a ousadia da comparação – com a
letra T da palavra tempo. As outras dimensões para o seu aperfeiçoamento
devem ser – salvo melhor juízo – A de arte, C de Cultura e E de
Entusiasmo. O tempo, entretanto, não depende de nenhuma das outras, mas
participa de todas.
Cultura e estudo usam-se aqui como sinônimos, em relação à inteligência
ou mente, porquanto se a mesma é produto de constante e bem orientado
estudo, seria impossível obter uma relativa cultura geral ou específica,
sem muito estudo, que é termo correlativo de trabalho, esforço e
dedicação.
Arte se toma comumente como efeito e aquisição num curso de taquigrafia
e arte é também o método adotado, que deve ser simples, claro e
eficiente. Arte é treino e arte é exercício, aos quais estão adstritos
conhecimento, domínio e rapidez.
Entusiasmo traduz aceitação e progresso e seria inconcebível que alguém
conseguisse ser um bom estudante ou viesse a ser um bom profissional sem
possuir como qualquer artista a vocação ou a flama que anima os
verdadeiros artistas a caminho da perfeição.
A perfeição, como todos sabemos, é incolimável. E, no entanto, é a sua
procura que promove estudantes, ainda os mais bisonhos, a mestres em
todas as artes. Efetivamente, os grandes taquígrafos de hoje, mestres na
sua técnica e senhores da sua arte, já foram um dia estudantes também e
já conheceram as mesmas dificuldades de qualquer iniciante.
Cultura é a promoção ou o tema deste artigo; Perfeição a sua pedra
filosofal, isto é, o seu ideal de sempre, a cuja procura nos dedicamos
de corpo e alma. E sempre uma relativa cultura se obtém nas
possibilidades e no gabarito de cada um, que tem honrado e continua a
honrar a nossa profissão, tão estreitamente ligada às letras, à
inteligência e à ciência.
Amanhã, máquinas eletrônicas poderão liberar definitivamente o cérebro
de cálculos cansativos, mas nenhum robô ou nenhum engenho substituirá,
em tempo algum, a delicada e peculiar função do taquígrafo. Tradutores
mecânicos poderão ajudar a traduzir, em vários idiomas, o texto que
somente um excelente profissional pode apanhar correntemente, quando
fala um orador inspirado a 140 p.p.m, mas somente a mesma inteligência
humana que construiu a máquina poderá corrigir os equívocos que ela
cometer.
Cabe ao verdadeiro taquígrafo fixar e transcrever as palavras do tribuno
e o seu pensamento, evitando enganos e falsas interpretações, que longe
de produzirem as rosas de Malherbe, trar-lhe-iam a colaboração de La
Palisse. Ora, um taquígrafo consciente não pode ser colaborador. Não tem
o direito de acrescentar ou tirar algo ao texto ou de traduzi-lo como
fez o estafeta de um general asmático, no campo de batalha. Este lhe
teria dito, entre dois acessos de tosse: “Ma sacré toux”. – Minha cruel
Tosse! E o insofrido correio de pronto transmitiu ao seu lugar-tenente a
“ordem” terrível: “Masacrez tous!” Degolai todos! Passe a fio de espada
todos os prisioneiros! Magnífica tradução!, mas fonética.
Quanto mais erudição possuir um orador e quanto mais culta for a
assembléia, maior será a responsabilidade do taquígrafo, porque maior
deve ser a complexidade do assunto. Então, maior competência lhe será
exigida, para desempenhar-se com a necessária eficiência.
A língua, a sua correção, a sua castidade e a sua maleabilidade
representam os principais elementos dessa cultura específica.
Pedra de toque para se conhecer o valor de um taquígrafo é a conversão.
Dir-se-á: Mas como a conversão, se ele tem de cingir-se à palavra do
orador? – Exatamente, por isso. Porque não será um bom taquígrafo aquele
que não souber converter fielmente, e não será jamais um conversor fiel
aquele que não for um bom taquígrafo.
Este fraseado redundante demonstra que também há círculos viciosos
capazes de comprovarem a verdade. E não é só. A exata compreensão do
texto é tarefa de quem converte e, nessa compreensão, um dos fatos que
mais afetam o taquígrafo é a sua pontuação. Com efeito, conversão e
pontuação ele só poderá fazer corretamente se estiver habilitado a
compor e decompor a frase, isto é, familiarizado aos processos de
análise e síntese. E, ainda assim, o exato lugar de uma vírgula, o seu
uso ou omissão podem constituir um problema.
Admita-se, por exemplo, a frase seguinte: “Depois de recusar duas vezes
a noiva balbuciou o sim”. A vírgula depois da palavra “noiva” dar-nos-ia
um noivo remisso; depois da palavra “vezes”, a noiva é que seria
caprichosa ou indecisa. De sua omissão, porém, pode resultar um absurdo
maior. Ninguém, pelo menos, deve esquecê-la neste caso: “Deus é grande,
pecador”. Aprendizado eficiente e cultura são relações de causa e
efeito. Cultura é, em suma, algo daquilo que cada um de nós pode
elaborar com paciência beneditina, arte e amor ao trabalho, treino e
tempo que se dilata pela vida afora. Depois de um tempo assim, que é,
como disse Rui, o estofo de todas as coisas nobres e preciosas,
poder-se–á conquistar uma relativa cultura. Perfeição é o seu corolário.
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