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  GRANDES NOMES > especial Paulo Gonçalves

Taquigrafia e Cultura


  

A cultura geral influi necessariamente na formação taquigráfica do estudante, na sua compreensão, no seu desenvolvimento e no seu entusiasmo.

 

Em igualdade de condições, aquele que estiver mais bem forrado de conhecimentos gerais alcançará o voto de Minerva, na luta pelo aperfeiçoamento na arte a que se dedica, pois Minerva é a deusa da sabedoria e das artes e neta dileta de Cromo (também chamado Urano ou Saturno), que preside ao Templo, e ele próprio é o deus que abarca o Presente, o Passado e o Futuro. Se nos fosse possível imaginar ou construir uma fórmula para ajudar o aluno de taquigrafia, nós a remataríamos, como fez Einstein – passe a ousadia da comparação – com a letra T da palavra tempo. As outras dimensões para o seu aperfeiçoamento devem ser – salvo melhor juízo – A de arte, C de Cultura e E de Entusiasmo. O tempo, entretanto, não depende de nenhuma das outras, mas participa de todas.

 

Cultura e estudo usam-se aqui como sinônimos, em relação à inteligência ou mente, porquanto se a mesma é produto de constante e bem orientado estudo, seria impossível obter uma relativa cultura geral ou específica, sem muito estudo, que é termo correlativo de trabalho, esforço e dedicação.

 

Arte se toma comumente como efeito e aquisição num curso de taquigrafia e arte é também o método adotado, que deve ser simples, claro e eficiente. Arte é treino e arte é exercício, aos quais estão adstritos conhecimento, domínio e rapidez.

 

Entusiasmo traduz aceitação e progresso e seria inconcebível que alguém conseguisse ser um bom estudante ou viesse a ser um bom profissional sem possuir como qualquer artista a vocação ou a flama que anima os verdadeiros artistas a caminho da perfeição.

 

A perfeição, como todos sabemos, é incolimável. E, no entanto, é a sua procura que promove estudantes, ainda os mais bisonhos, a mestres em todas as artes. Efetivamente, os grandes taquígrafos de hoje, mestres na sua técnica e senhores da sua arte, já foram um dia estudantes também e já conheceram as mesmas dificuldades de qualquer iniciante.

 

Cultura é a promoção ou o tema deste artigo; Perfeição a sua pedra filosofal, isto é, o seu ideal de sempre, a cuja procura nos dedicamos de corpo e alma. E sempre uma relativa cultura se obtém nas possibilidades e no gabarito de cada um, que tem honrado e continua a honrar a nossa profissão, tão estreitamente ligada às letras, à inteligência e à ciência.

 

Amanhã, máquinas eletrônicas poderão liberar definitivamente o cérebro de cálculos cansativos, mas nenhum robô ou nenhum engenho substituirá, em tempo algum, a delicada e peculiar função do taquígrafo. Tradutores mecânicos poderão ajudar a traduzir, em vários idiomas, o texto que somente um excelente profissional pode apanhar correntemente, quando fala um orador inspirado a 140 p.p.m, mas somente a mesma inteligência humana que construiu a máquina poderá corrigir os equívocos que ela cometer.

 

Cabe ao verdadeiro taquígrafo fixar e transcrever as palavras do tribuno e o seu pensamento, evitando enganos e falsas interpretações, que longe de produzirem as rosas de Malherbe, trar-lhe-iam a colaboração de La Palisse. Ora, um taquígrafo consciente não pode ser colaborador. Não tem o direito de acrescentar ou tirar algo ao texto ou de traduzi-lo como fez o estafeta de um general asmático, no campo de batalha. Este lhe teria dito, entre dois acessos de tosse: “Ma sacré toux”. – Minha cruel Tosse! E o insofrido correio de pronto transmitiu ao seu lugar-tenente a “ordem” terrível: “Masacrez tous!” Degolai todos! Passe a fio de espada todos os prisioneiros! Magnífica tradução!, mas fonética.

 

Quanto mais erudição possuir um orador e quanto mais culta for a assembléia, maior será a responsabilidade do taquígrafo, porque maior deve ser a complexidade do assunto. Então, maior competência lhe será exigida, para desempenhar-se com a necessária eficiência.

 

A língua, a sua correção, a sua castidade e a sua maleabilidade representam os principais elementos dessa cultura específica.

 

Pedra de toque para se conhecer o valor de um taquígrafo é a conversão. Dir-se-á: Mas como a conversão, se ele tem de cingir-se à palavra do orador? – Exatamente, por isso. Porque não será um bom taquígrafo aquele que não souber converter fielmente, e não será jamais um conversor fiel aquele que não for um bom taquígrafo.

 

Este fraseado redundante demonstra que também há círculos viciosos capazes de comprovarem a verdade. E não é só. A exata compreensão do texto é tarefa de quem converte e, nessa compreensão, um dos fatos que mais afetam o taquígrafo é a sua pontuação. Com efeito, conversão e pontuação ele só poderá fazer corretamente se estiver habilitado a compor e decompor a frase, isto é, familiarizado aos processos de análise e síntese. E, ainda assim, o exato lugar de uma vírgula, o seu uso ou omissão podem constituir um problema.

 

Admita-se, por exemplo, a frase seguinte: “Depois de recusar duas vezes a noiva balbuciou o sim”. A vírgula depois da palavra “noiva” dar-nos-ia um noivo remisso; depois da palavra “vezes”, a noiva é que seria caprichosa ou indecisa. De sua omissão, porém, pode resultar um absurdo maior. Ninguém, pelo menos, deve esquecê-la neste caso: “Deus é grande, pecador”. Aprendizado eficiente e cultura são relações de causa e efeito. Cultura é, em suma, algo daquilo que cada um de nós pode elaborar com paciência beneditina, arte e amor ao trabalho, treino e tempo que se dilata pela vida afora. Depois de um tempo assim, que é, como disse Rui, o estofo de todas as coisas nobres e preciosas, poder-se–á conquistar uma relativa cultura. Perfeição é o seu corolário.

 

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